Transtorno do Espectro Autista: reconhecer cedo faz toda a diferença
A importância da intervenção precoce na constituição psíquica e no desenvolvimento global da criança, contribuindo para a promoção da saúde mental
O número de crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem crescido de forma consistente em diversos países. Estimativas internacionais indicam que a prevalência passou de cerca de 1 em cada 150 crianças no início dos anos 2000 para 1 em cada 68 em 2012, chegando, mais recentemente, a aproximadamente 1 em cada 44 crianças. No Brasil, embora ainda não exista um levantamento nacional preciso, profissionais da saúde e da educação também observam um aumento expressivo nos diagnósticos.
Esse crescimento não significa, necessariamente, que haja mais casos do que no passado, mas reflete, em grande parte, a ampliação do conhecimento sobre o TEA, o aprimoramento dos critérios diagnósticos e a maior visibilidade do tema. Por muitos anos, o medo do preconceito, dos rótulos e a falta de informação levaram ao silêncio de muitas famílias, resultando, frequentemente, em atraso no cuidado e no acesso a intervenções adequadas.
A literatura científica indica que o reconhecimento precoce de sinais de risco no desenvolvimento infantil é um dos fatores mais importantes para a qualidade de vida futura da criança. Alguns indícios podem surgir ainda no primeiro ano de vida, embora, na maioria dos casos, tornem-se mais evidentes por volta dos dois anos de idade, período a partir do qual o diagnóstico formal costuma ser estabelecido.
Antes dessa idade, fala-se em sinais de risco ou de possível comprometimento no desenvolvimento, uma vez que não é possível confirmar o diagnóstico de TEA em bebês muito pequenos. Esses sinais podem incluir alterações nos chamados movimentos gerais do corpo. Estudos recentes publicados na revista Scientific Reports, que avaliaram os movimentos de bebês a partir dos quatro meses de idade, sugerem que determinadas alterações motoras podem estar associadas a um maior risco para o desenvolvimento do TEA, configurando-se como possíveis marcadores precoces, embora não diagnósticos nem determinísticos.
Essas alterações motoras iniciais podem influenciar a forma como o bebê interage com o ambiente e com seus cuidadores. Por exemplo, dificuldades em manter a cabeça alinhada ou em realizar movimentos corporais mais organizados podem interferir nas trocas iniciais com o adulto. O vínculo que se constrói nas interações precoces é um processo relacional e multifatorial, que envolve aspectos biológicos, ambientais e sociais, e desempenha papel importante no desenvolvimento global da criança, sem que dificuldades iniciais possam ou devam ser atribuídas a falhas parentais.
A intervenção oportuna, iniciada ainda nos primeiros anos de vida, permite atuar a favor da neuroplasticidade. No entanto, observa-se que sinais iniciais de risco no desenvolvimento muitas vezes são negligenciados, enquanto há maior divulgação das características de quadros já mais estabelecidos, como pouco contato visual, atraso ou ausência da fala, dificuldade em responder ao próprio nome, desafios na brincadeira compartilhada, movimentos repetitivos, interesses restritos e sensibilidade acentuada a estímulos sensoriais, como sons, luzes ou mudanças na rotina.
Esses sinais são frequentemente organizados em checklists amplamente disponíveis, que podem auxiliar na observação inicial. Ainda assim, é fundamental destacar que não existe um único “jeito” de ser autista. Cada criança apresenta características próprias, e o diagnóstico deve ser construído a partir de uma escuta clínica qualificada, cuidadosa e contextualizada, realizada por profissionais especializados.
Além disso, estudos oriundos da química e da bioquímica do neurodesenvolvimento têm contribuído para a compreensão dos processos moleculares envolvidos na neuroplasticidade, como a sinalização por neurotransmissores e o metabolismo cerebral. Essas investigações não têm finalidade diagnóstica ou terapêutica isolada, mas ampliam o entendimento científico sobre a diversidade de trajetórias no desenvolvimento infantil, incluindo aquelas associadas ao Transtorno do Espectro Autista.
Quando pais ou cuidadores percebem algo diferente no desenvolvimento da criança, é comum surgirem dúvidas e inseguranças. Muitos se perguntam se não seria melhor aguardar para ver se os comportamentos se modificam com o tempo. No entanto, a recomendação dos profissionais é não esperar passivamente, mas acompanhar de forma atenta e qualificada. O primeiro passo costuma ser a conversa com o pediatra, que poderá monitorar o desenvolvimento e, se necessário, encaminhar para avaliação com neuropediatra, psiquiatra infantil ou equipe transdisciplinar, composta por psicólogos, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos.
Buscar acompanhamento especializado precocemente pode fazer grande diferença. Estudos indicam que intervenções iniciadas nos primeiros anos de vida, diante de sinais de risco para o TEA, estão associadas à ampliação das habilidades de comunicação, interação social e autonomia. A literatura também aponta que a ausência ou o atraso no acompanhamento pode intensificar dificuldades em situações do cotidiano e no contexto escolar, impactando a vida da criança em diferentes aspectos. É essencial compreender que o objetivo da intervenção não é “corrigir” o autismo, que não é uma doença, mas oferecer suporte adequado ao desenvolvimento e à qualidade de vida da criança, respeitando seus tempos, interesses e potencialidades. Assim, apostar na intervenção oportuna constitui um importante meio de prevenção e de promoção da saúde mental, especialmente frente ao crescente protesto de psicopatologização na infância.
O papel do profissional é, antes de tudo, escutar, orientar e construir, junto à família, estratégias singulares de cuidado. Não há uma intervenção única ou padronizada: as abordagens eficazes envolvem a família, respeitam o ritmo da criança e promovem condições para que ela se desenvolva de forma mais autônoma e participativa. Além disso, o acompanhamento especializado também contribui para acolher as angústias e dúvidas dos cuidadores, fortalecendo vínculos e promovendo segurança.
Falar sobre o Transtorno do Espectro Autista é romper barreiras. Quando o tema é tratado com informação, sensibilidade e respeito, abre-se espaço para uma sociedade mais inclusiva. Crianças autistas não precisam de silêncio: precisam de cuidado, compreensão e oportunidades. Essas oportunidades começam quando reconhecemos os sinais precocemente e agimos com atenção e acolhimento.
Para saber mais:
BEAULIEU et al. Manual and automated assessments of general movements in neonates are associated with early autism risk at 18 months. Scientific Reports, v. 16, p. 4358, 2026 [AQUI]
MAROTTA, R. et al. The Neurochemistry of Autism. Brain Sciences, v. 10, n. 3, p. 163, 2020 [AQUI].
Carolina Albuquerque
Psicóloga Infantil - Vila Pupilo - Viçosa
Psicóloga pela UFMG; Membro da La Cause des Débés (Paris)
E-mail: carolinabarbosa.psicologia@gmail.com
Luiz Cláudio de Almeida Barbosa, PhD
Prof. Titular de Química – UFMG - E-mail: lcab@outlook.com
Belo Horizonte, 09 de fevereiro de 2026.



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